Mais um número da revista eletrônica Modapalavra está no ar, reunindo desta vez autores das mais diferentes instituições de ensino do Brasil. Estes autores que colaboram conosco além dos muros da Universidade do Estado de Santa Catarina favorecem o amadurecimento acadêmico deste periódico científico, marcando, de vez, o abandono de qualquer resquício de endogenia. Mas não apenas o periódico dá provas de seu crescimento, como o campo da moda no país, que incentivando das mais distintas formas muitas pesquisas com a temática da Moda, apresenta de norte a sul e de leste a oeste novos pesquisadores, novas discussões e muitas possibilidades de crescimento.

Atualmente no Brasil, a partir da base do CNPq, existem vinte e quatro grupos de pesquisa que têm, dentre suas palavras chave, o termo Moda. Estes grupos reúnem em torno de si doutores, mestres, especialistas e estudantes de diferentes níveis que, a partir de seus objetos específicos de investigação, estão contribuindo para o aprofundamento da temática e, conseqüentemente, das produções acadêmicas, industriais e mesmo no campo da criação do produto de moda e de seus consumidores.

Segundo Dorotéia Pires¹ temos 206 títulos em português disponíveis no mercado editorial brasileiro que tratam do tema moda e são indispensáveis na composição de um estudo de base na área. Grande parte dessas obras foram produzidas nos últimos anos, acompanhando o crescimento extraordinário do ensino superior de Moda. Há oito anos tínhamos apenas 20 cursos de formação do profissional de moda no Brasil, em 2010 os números são inacreditáveis, somam-se 150 cursos, distribuídos em 131 instituições de ensino. Nesses cursos há diversas modalidades sendo oferecidas entre bacharelado, tecnólogo e seqüenciais, o que repercute num elenco de novos profissionais aptos para atuar em diferentes níveis de exigência do mercado brasileiro.

Neste primeiro semestre de 2010, uma revista de relevância nacional, qualificada com B1 na área interdisciplinar, desenvolveu seu núcleo temático em torno da Moda. Com 6 artigos, duas entrevistas e mais um relatório das condições da pesquisa no Brasil, a revista levou a um grande número de leitores as discussões presentes do Universo da Moda.

E nossa revista, mantendo-se fiel a seus propósitos, também traz aqui cinco artigos inéditos, de profissionais bem qualificados, que através de seus estudos e pesquisas oferecem a nossos leitores uma discussão rica em torno de diferentes temas.
Márlon Calza abre o número 6 desta revista apresentando-nos um trabalho sobre as relações  estabelecidas entre a Moda, a Comunicação, os sujeitos e as ruas. A discussão, proposta parte de um projeto de pesquisa em desenvolvimento, é empreendida com base na leitura e observação de algumas imagens fotográficas publicadas no blog de Scott Schuman, The Sartorialist, selecionadas dentre toda uma diversidade de produtos midiáticos que têm na Moda Urbana o seu foco de interesse. Seguindo-o, numa abordagem ainda mais sociológica que mercadológica, Débora Pinto, Rita Barbosa e Maria Dolores Mota discutem as transformações ocorridas no ritual de composição do enxoval de noiva, apontando que a forma de preparar este enxoval mudou de uma fabricação artesanal, onde vivências e valores entre mulheres eram transmitidos a cada ponto, configurando um sistema de trocas simbólicas, conotando-o como dádiva, para uma prática de consumo coordenada por empresas especializadas e orientada por valores estabelecidos pelo mercado, no qual se constitui como mercadoria de homewear.

Paulo Keller, por sua vez, traz outra discussão, não muito distante das anteriores, mas que propõe um olhar mais introspectivo, no sentido de sugerir aos leitores designers uma análise de sua própria relação com o mercado. No artigo “O Estilista e a Indústria da Moda”, Keller analisa a ocupação estilista de moda (fashion designer) na sociedade contemporânea a partir das ferramentas analíticas da sociologia do trabalho, da sociologia da moda e da sociologia econômica, especializada na análise de redes. O estudo conclui que o trabalho do estilista de moda constitui uma atividade produtiva de caráter imaterial, cognitivo e criativo que demanda habilidades múltiplas.

O penúltimo artigo segue pelas discussões do design de moda, porém agora atento aos conceitos metodológico-visuais para o desenvolvimento de estamparia têxtil. Descreve ao longo do texto uma metodologia experimental para a criação de tecidos estampados, acompanhando preceitos pontuais da Teoria da Gestalt no que diz respeito à formação de unidades expressivas. Sem prever um nicho de mercado específico, a metodologia projetual mostra-se pertinente em qualquer nível de domínio de ferramentas de desenho (manuais ou digitais) bem como das temáticas e de estilos diversos que podem ser explorados a partir da estamparia.

Finalizando a seção, Carla Duarte, seguindo próxima a Luz, discute a ilustração de moda e o desenho de moda. A partir de um breve histórico desses, foram evidenciadas as acepções que diferenciam os dois modos de produção da linguagem do desenho. A partir de uma revisão bibliográfica, foram selecionados dois tópicos, abordando questões referentes à constituição da ilustração de moda e do desenho de moda.

Como ensaios, esta edição da Modapalavra traz quatro textos, cujas temáticas são distintas e por isto, ainda mais interessantes de serem lidas. Aurivar Fernandes presentea os leitores com um estudo curto, mas apropriado da história da beleza masculina. Como graduando em Psicologia enfoca o tema sob a ótica de suas leituras principais e buscou nos períodos históricos pesquisados, definir a beleza masculina e as características desta, averiguando a existência de diferenças e/ou semelhanças em cada um deles, e, diferente do que o senso comum julga, concluiu que a preocupação masculina com a beleza está em todos os períodos pesquisados com suas particularidades, sendo essa preocupação não exclusiva do universo feminino. Trabalhando ainda com a história, Ivana Simili, Priscila Camacho e Pollyanna Ponte fizeram um interessante estudo sobre o uniforme das enfermeiras recrutadas pelas forças expedicionárias brasileiras, durante a 2ª Guerra Mundial. Por intermédio de relatos e fotografias existentes na bibliografia e nos acervos da imprensa, foi proposta uma narrativa detalhista.

Na continuidade, Camila Dias, ainda argumentando pelo viés histórico, compara como as tendências de moda são influenciadas pelos momentos de crise como a de 1929 e a atual. Um tema bem contemporâneo que há de provocar algumas reflexões. Rebecca Mello, por sua vez, discute a influência da música no processo de criação do designer de moda. O ensaio explora uma experiência didática bem sucedida, onde a música foi utilizada como estímulo a atividades em aula. Assim, aos docentes como aos discentes o ensaio propõe novas possibilidades.

Concluindo a nossa edição, apresentamos uma entrevista, realizada por Dorotéia Pires com a designer italiana Nanni Strada. Considerada uma protagonista do design contemporâneo, reconhecida internacionalmente e ligada às correntes artísticas do minimalismo e da arte “povera”, trabalhou para importantes marcas, assinou coleções, desenvolveu protótipos, realizou experimentos formais que revolucionaram os modos de vestir e, como não podia deixar de ser, tem muito a dizer aos profissionais do setor e aos estudantes sempre sedentos de ídolos e bons modelos a seguir.

Assim nossa revista se encerra, esperando que cada um a seu jeito e conforme seus interesses tenha encontrado o que procurava, aprendido algo, duvidado de tantos outros e acrescentado a si mais uma provocação e estímulo à pesquisa, ao debate e, claro, à redação de um próximo texto, que neste periódico científico pode vir a ser publicado.

Votos de boa leitura,

Profa. Mara Rúbia Sant'Anna

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1. In: Ciência e Cultura, ano 62, n. 2. abr/mai/jun 2010, p. 39.