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Arte na Escola

 

Bate-papo com Sulanger Bavaresco, formada pela UDESC
 


 

A diretora teatral Sulanger Bavaresco, formada pelo CEART, foi empossada em dezembro de 2011 na Academia Catarinense de Letras e Artes (ACLA). Nesta entrevista, ela conta um pouco de sua trajetória e de seus planos.




1) Qual é a sua formação e quando estudou no CEART?
Cursei Licenciatura Plena em Educação Artística com Habilitação em Artes Cênicas no período de 1989 – 1992. Em 1996 conclui Pós-Graduação - Especialização em Teatro-Educação com a monografia A Adaptação de Textos Literários para Montagens Teatrais, que contou com a orientação do professor Valmor Beltrami.


2) Como você descobriu que queria seguir carreira artística?
Quando criança, na pequena Bom Sucesso, distrito de Videira/SC, mergulhava na literatura oferecida por uma pequena biblioteca local e sentia-me atraída pela arte de maneira geral. Aos 10 anos iniciei atividades nas apresentações artísticas da escola. Cantei, dancei, declamei poesias, escrevi peças curtas para o dia das mães, promovi defesa artística de árvores a serem cortadas por fazerem sombra indevida nos frios invernos do oeste catarinense, tocava o sino da vila ao meio-dia e às seis da tarde e observava sonhadora para além das montanhas de minha infância com uma única certeza: queria fazer teatro. Aos quatorze anos mudei-me para Blumenau onde o teatro continuava no palco e eu na plateia, acompanhando crianças sob supervisão de uma babá, que era eu. Em 1985, em Florianópolis, ingressei no Grupo Fórmula Arte, interpretando uma flor em Alice no País das Maravilhas, dirigida por Márcio Schutz. Sei que a arte sempre palpitou em mim e o teatro foi realmente uma revelação sem explicação, até porque em minha infância, nunca assisti a uma peça teatral.


3) Recentemente, em dezembro de 2011, você foi empossada na Academia Catarinense de Letras e Artes (ACLA) de Santa Catarina. Você esperava por isso?
Não esperava a indicação. Carrego a certeza de que outros poderiam estar ocupando a cadeira a mim destinada. Tive a sorte de aprender com mestres maravilhosos, que até hoje denomino “meus” professores. Mas neste momento coube a mim o convite e sendo o teatro, muitas vezes, uma arte que é colocada à margem de outras, seria indelicado e equivocado não aceitar a homenagem. A indicação e posse na ACLA confirma a passagem do tempo. Estou mais velha e devo ter feito algo pelo teatro para merecer a indicação. Tive impressão positiva da ACLA, pelo espaço e reverência às formas de artes além da literatura e minha expectativa é de poder contribuir para que a mesma mostre-se operante quanto à conquista de espaço e reconhecimento da arte teatral no Estado de Santa Catarina.


4) Você criou o Festival de Teatro Isnard Azevedo – Floripa Teatro, integrando, inclusive, a comissão organizadora em sete edições do festival. Como se deu a criação do festival, que neste ano chegou à 18ª edição?
O projeto do Festival foi elaborado em 1993, através de meus trabalhos junto ao Setor de Teatro da Fundação Franklin Cascaes, órgão público responsável pela administração cultural no município de Florianópolis. Naquele ano o escritor Salim Miguel iniciava sua gestão à frente da Fundação Franklin Cascaes e seu apoio ao projeto do Festival foi decisivo para implementação do mesmo.

Seu formato, inspirado em outros festivais de teatro do país, em especial o Festival Universitário de Teatro de Blumenau/SC, apresentava caráter competitivo com distribuição de troféus nos diversos quesitos técnicos e prêmio em dinheiro para os melhores espetáculos nas duas categorias. A participação de meus ex- professores do Curso de Artes Cênicas do CEART/UDESC foi fundamental nos primeiros passos da realização do Festival. Destaco a generosidade dos professores Valmor Beltrami, Vera Collaço e José Ronaldo Faleiro (criador do Festival Universitário de Teatro de Blumenau), que contribuíram no contato com profissionais da área teatral brasileira e na divulgação geral do evento. Lembro que nas primeiras edições do festival, o curso dispensava os alunos das aulas normais para que participassem do evento. A relação do festival com o curso de artes cênicas da UDESC foi muito próxima e acredito que o diálogo precisa ser retomado, assim como se faz necessária a participação do Curso de Teatro da UFSC no evento.

O sucesso da 1ª edição foi comprovado pela aceitação do público que lotou o teatro em todas as sessões e pela avaliação positiva da imprensa local. Os espetáculos participantes apresentaram excelente nível técnico e artístico, sendo que alguns deles fizeram, após sua participação no Festival, incursões em outros eventos do gênero e temporadas nacionais, a exemplo de Decameron, da Cia Estravaganza, de Porto Alegre/RS e Baal Babilônia, da Sutil Companhia de Teatro, de Curitiba/PR, monólogo com o ator Guilherme Weber e direção de Felipe Hirsch.

Fui responsável pela criação do festival e pela coordenação de suas primeiras edições. Estive fora da coordenação geral do evento por mais de dez anos. Neste período, morei dois anos no exterior e nos outros anos estava locada em outros setores da Fundação Franklin Cascaes, atuando no Festival como membro da Comissão Selecionadora, Julgadora e em funções necessárias no momento da execução do evento, não tendo participação em sua organização geral. Em 2006 voltei a integrar a Comissão Organização do festival de forma direta.


5) Como você vê o festival atualmente, no panorama do teatro brasileiro?
A partir de 2006, a Fundação Franklin Cascaes realiza importantes mudanças no perfil do Festival. Devido ao número limitado de casas de espetáculos na cidade, as características geográficas do município (uma ilha com área continental) e o grande interesse do público na fruição do evento, considerou-se que o crescimento do Festival se daria através de apresentações estendidas para as diferentes regiões da cidade, beneficiando o maior número de comunidades possível. Para tanto, instala-se lonas em diferentes regiões com a inclusão de Circo-teatro e cria-se a Cena Aberta nas Comunidades, ampliando a participação de espetáculos de Teatro de Rua.

O Festival cresceu e precisa se pautar em mecanismos que garantam sua qualidade. A forma de curadoria encontra-se em discussão e é certo que o festival não pode ser a única ação da área teatral por parte da administração municipal. Pessoalmente, acredito que, sendo um evento criado em uma gestão pública e à mercê de mudanças políticas, o Festival sobreviveu pela firme posição dos produtores teatrais em defender espaço para o teatro na administração cultural da cidade e pelo desejo do público na fruição da arte teatral.

Embora o Festival se encontre em constante aprimoramento e alterações, o novo formato tem se revelado uma aposta certa. Considerando que em 2000 o Festival contou com 56 apresentações teatrais, e em 2011 atinge a soma de 157 apresentações em diferentes espaços da Cidade, levando a arte teatral a aproximadamente 40 mil espectadores, é plausível afirmar que o Floripa Teatro – Festival isnard Azevedo consolida-se como um dos importantes eventos da área teatral no Brasil.


6) Você trabalhou, inclusive, com Isnard Azevedo no grupo O Dromedário Loquaz. Como foi esta experiência?
Antes de integrar o Grupo de Teatro O Dromedário Loquaz, assistia às montagens de Isnard com olhos admirados e cobiçosos. Estava iniciando minhas experiências como atriz e não imaginava poder participar do grupo. O convite deu-se em 1987 pelo próprio Isnard. Participei do espetáculo Pessoa(s) e de inúmeras reuniões e trabalhos de improvisação e leituras de textos. A frente do Grupo de Teatro O Dromedário Loquaz, Isnard Azevedo se responsabilizava pelas mais variadas funções técnicas e artísticas, atuando como diretor, cenógrafo, iluminador, figurinista e sonoplasta. Isnard era visionário, inquieto, inovador e exigente. Isnard foi uma personalidade marcante no teatro desenvolvido em Florianópolis na década de 80 e aos que trabalharam com ele, tornou-se um desafio seguir com as atividades do grupo após sua ausência. Foi necessário vencer a autocrítica, não pensar em comparações e trazer a tona os ensinamentos acumulados no desenvolvimento de linguagem própria.


7) Você foi diretora cênica e diretora assistente de mais de 10 montagens de ópera em Florianópolis. Como você vê o mercado de trabalho nesta área atualmente em Santa Catarina? Como é dirigir uma ópera?
O contato com a área da ópera constituiu-se para mim em um presente. Fui introduzida a este universo através de convite do diretor Antônio Cunha. A música, linguagem universal, constitui-se na ópera, como a partitura que define o tempo das ações, a personalidade das personagens e a curva dramática que desenha o início, clímax e final da obra. Participar do processo de criação de uma ópera é dar vida a rituais que se repetem e emocionam a cada momento. As encenações atuais contam com elenco formado por intérpretes que se dedicam com técnica e profundidade em seus papéis. Além de cantarem, estudam a construção de seus personagens e buscam nos diretores cênicos respostas concretas para a encenação. O mercado de trabalho relacionado à ópera encontra-se em franco desenvolvimento. Operetas também têm sido apresentadas com sucesso e o canto lírico de modo geral, tem ocupado espaço merecido na cidade.


8) Você também esteve envolvida na direção de diversas peças teatrais e como diretora, atriz e manipuladora de bonecos em teatros infantis e de animação. Quais os principais desafios encontrados nesta área?
Iniciei minhas atividades teatrais como atriz em Teatro Infantil. Lembro ser uma experiência de felicidade intensa. O público formado por crianças é sincero em suas reações e sem abrir mão de técnica, se faz necessário mergulhar de coração no trabalho, pois a relação público/palco precisa ser intensa e verdadeira. Após a formação acadêmica minhas experiências na área tornaram-se raras. O temor em cometer erros me tomou de assalto e a responsabilidade pesou. Os desafios na área são muitos, mas para mim, acredito que o principal seja atingir o simples, a comunicação sem rodeios, pois as crianças são de inteligência visual a toda prova. Hoje, como mãe, o desejo de retornar ao teatro infantil reapareceu e até preparei um projeto, ainda não realizado, de montagem infantil a partir de obra de Ana Maria Amaral.


9) Como surgiu seu interesse em trabalhar também com a linguagem do teatro de animação?
O contato inicial com a linguagem do teatro de Animação deu-se através do Grupo de Teatro Fórmula Arte, com o diretor Márcio Shutz e posteriormente com o professor Valmor “Nini” Beltrami durante o curso de Artes Cênicas. Hoje, minha relação com a linguagem é de espectadora e como tal observo o surgimento de profissionais da área em Santa Catarina, através da realização de belos espetáculos. O Festival Internacional de Teatro de Animação - FITA Floripa comprova também que a linguagem é sucesso de público.


10) Em sua opinião, como está o cenário cultural atualmente em Santa Catarina, e em Florianópolis? Como você vê o Centro de Artes neste contexto?
Nos últimos anos, Santa Catarina tem apresentado desenvolvimento expressivo em todas as áreas das artes. É fácil acompanhar através dos meios de comunicação o espaço ocupado pela literatura, pela dança, pelas artes visuais, pela música e pelo teatro. Muitos artistas catarinenses têm obtido reconhecimento nacional por sua produção. Anualmente despontam novos grupos artísticos e profissionais independentes. O Centro de Artes da UDESC tem desempenhado importante papel neste panorama e acredito que parte da efervescência que vivenciamos hoje seja fruto do trabalho desenvolvido pelo curso ao longo das duas últimas décadas. Os profissionais das artes advindos da academia são munidos de questionamentos técnicos e artísticos e buscam reconhecimento de sua arte. De minha parte, não posso deixar de reconhecer mestres que marcaram meus anos de estudante no Centro de Artes da UDESC. Vera Collaço, Ronaldo Faleiro, Margarida Baird, Sandra Ramalho, Valmor Beltrame, Sandra Meyer, Eliane Lisboa, André Carreira...


11) Você foi a diretora cênica do espetáculo Imagens de Ópera, interpretado pela soprano Alicia Cupano, professora do CEART, e pelo pianista Eugênio Menegaz. A produção recebeu o Prêmio Franklin Cascaes de Cultura 2009, na categoria Música Erudita. Como dirigir este espetáculo?
A concepção inicial do espetáculo foi criada pela soprano Alicia Cupani quando foi convidada para apresentar recital na inauguração do piano adquirido para o Teatro da UBRO, em 2007. Na ocasião eu respondia pela gerência do espaço e fui convidada por Alicia e o pianista Eugênio Menegaz para assistir ao ensaio geral do recital encenado e expressar sugestões. Apaixonei-me pelo projeto e estabelecemos a parceria que perdura até hoje. Foi prazeroso dirigir o espetáculo, pois os dois são talentosos e extremamente exigentes na sua relação com a arte. O formato do espetáculo agrada tanto os iniciados no mundo da ópera como o público iniciante na área. O Prêmio Franklin Cascaes de Cultura, destinado por comissão formada por professores do curso de música do Centro de Artes foi a comprovação da qualidade do trabalho, assim como o é a resposta do público, que após quatro anos continua prestigiando o espetáculo. Pessoalmente, a cada ensaio e apresentação, sinto-me grata por estar presente no trabalho e renovo minha emoção e admiração diante do talento de Alícia e Eugênio.


12) Que outros projetos você prepara para o futuro?
Estou preparando intervenção urbana que reúne ópera e cena a ser apresentada em área pública da cidade e a montagem do espetáculo “Um Deus Dormiu lá em Casa”, de Guilherme Fiqueiredo, a ser realizado em parceria pelo Grupo de Teatro O Dromedário Loquaz e Grupo Armação.


 

 

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© Centro de Artes, 23 de Fevereiro de 2012