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Arte na Escola

 

Perfil - Maria Bernardete Castelan Póvoas, docente do CEART desde a década de 1980
 
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Professora e  pianista, Mª Bernardete C. Póvoas desenvolve pesquisa interdisciplinar na área da técnica e interpretação músico-instrumental relacionada a argumentos de áreas que tratam do movimento humano.

 

1. Quando começou a sua relação com o piano e o que a levou a estudar o instrumento na graduação – e posteriormente em seu mestrado e doutorado?
Minha relação com o piano começou desde muito cedo, não lembro exatamente do momento. Quando tinha sete anos, meus pais adquiriram um piano Essenfelder. Logo comecei a ter aulas com uma professora italiana, Dona Josephina. Tenho boas lembranças das idas às aulas e acredito que ela foi excelente sob vários aspectos, entre eles me manteve envolvida com o instrumento até a adolescência, sempre me estimulando. É claro que minha família sempre esteve ao meu lado e dando total apoio. Com doze anos de idade, passei a ter aulas mensais em Porto Alegre, em uma Escola de Música muito organizada. Éramos quatro jovens nesta odisséia: duas amigas de colégio, minha irmã e eu. A viagem de Criciúma até Porto Alegre durava de 12 a 14 horas, dependendo da maré, pois na altura de Torres, parte da viagem acontecia na beira do mar. E os ônibus... Conto isto porque era uma aventura para a época que, além de ser estimulante, imprimia um status de seriedade ao investimento. Em Porto Alegre, enquanto as outras meninas tinham aula, eu embarcava nos bondes, ia até o final das linhas e voltava. Assim eu conheci a cidade onde mais tarde fui cursar a graduação em piano. Na verdade fui para Porto Alegre para cursar medicina, mas optei pela música.

Na graduação, tive como professora a pianista Dirce Bauer Kinjnik que também me orientou durante o mestrado. Durante os anos do curso aproveitei todas as oportunidades. Assistia o máximo possível de concertos, filmes e peças de teatro. Quando a “mesada” estava no final, eu almoçava na pastelaria para economizar e pagar os ingressos mais caros. Assisti “maravilhas do mundo” como Ravi Shankar (Cítara), Nicanor Zabaletta (Harpa), Astor Piazzola com seu primeiro Quinteto, Friedrich Gulda e André Watts (pianistas) e muitos outros espetáculos não somente de música. Foi uma fase muito rica, tive o privilégio de conviver com professores maravilhosos, competentes e amigos. A escola oferecia muitas oportunidades e eu tocava sempre que alguém acenava, fosse para acompanhar, ler uma peça a quatro mãos ou de câmera, ou quando professores me convidavam para fazê-lo. Eu ficaria horas falando sobre esta fase ...

Os recursos desta época eram os livros, discos, concertos. Eu adorava ir até a ‘Casa Beethoven’ folhear partituras e ouvir discos, conhecendo assim repertório, nomes de orquestras, regentes, ouvindo comentários. Esta foi grande parte de minha experiência durante a Graduação. Tudo fez parte de um aprendizado que até hoje continua.

Quando terminei o curso de graduação em piano, e dez semestres do Curso de Composição e Regência (não concluído, eram 14) fui para o Conservatório de Toulouse, na França. Também foi uma experiência importantíssima na minha formação; além de estudar fui professora substituta no conservatório. Na minha volta ao Brasil, fixei residência em Florianópolis e meu tio Aníbal Nunes Pires, um dos fundadores da UDESC, então Fundação Educacional de Santa Catarina, me convidou para dar aulas de Harmonia no Curso de Educação Artística – FAED. Neste mesmo curso dei também aulas de piano e outras disciplinas e, mais tarde, fui também diretora, época em que, juntamente com um grupo de professores, participei do projeto do Centro de Artes. Lembro que passei todo o recesso de verão finalizando este projeto.

O tempo passou e fui chamada para participar da primeira seleção do Mestrado em Música da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Dez anos depois fui aluna da primeira turma do programa de Doutorado também da UFRGS.


2. Como surgiu a oportunidade de fazer uma residência na Universidade de Iowa, Estados Unidos, nos anos 90? Como foi essa experiência?

O Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ao qual eu estive vinculada de 1995 até 1999, já previa um ano de residência em instituição estrangeira. Desta forma, em maio de 1997 me transferi para os Estados Unidos para cumprir créditos e realizar pesquisa na Iowa University. Lá permaneci com minha família durante um ano de dois meses. 

A experiência foi muito importante no sentido de conhecer outro ambiente universitário, outra cultura e condições diferentes de pesquisa. Tive acesso a materiais decisivos para a definição de meus objetivos. Também convivi com colegas, amigos e professores muito queridos para mim (estudei piano com René Lecuona).


3. Que motivos lhe incentivaram a dedicar-se ao ensino? Quais as dificuldades e recompensas da profissão?

O gosto pelo Ensino é um pouco tradição “de família”. Minha mãe, tios e irmão foram e são professores. Tio Aníbal sempre dizia adorar a sala de aula. Eu comecei a dar aulas de piano aos 15 anos e durante a Graduação continuei viajando de Porto Alegre para Criciúma para trabalhar.

Eu sempre gostei de passar as informações que tenho para as pessoas e de aprender com a experiência de ensinar que nada mais é do que uma troca. Para mim esta é a grande recompensa. Ensinar me renova, é como se aquele processo/aventura que começou lá do início de minha trajetória está sempre sendo impulsionado, sobretudo, pelo meu envolvimento com o ensino. Tenho tido alunos especiais sob vários aspectos e o sucesso deles é a minha satisfação. E o processo continua.

Quanto às dificuldades, elas sempre existem, algumas marcam mais, outras menos. Por exemplo, uma situação muito desgastante ocorreu na década de 1980-90 quando foi publicado o edital do vestibular da UDESC sem os cursos de Educação Artística.  A história se perde, mas posso afirmar que foi desgastante conseguir que saísse um edital extra para “nós”. Nesta época eu era diretora de Curso. A história do CEART poderia ser outra...

Existe também a dificuldade da burocracia das instituições, da eficiência versus ineficiência de alguns setores. Ao final, tudo dá certo! Não vamos falar disto, pois como encerrei minhas atividades administrativas em 2002, já que não pretendo participar, então não devo opinar (é o que dizem).

Outra dificuldade é vencer a frustração quando um aluno(a) não tem o mínimo reconhecimento pelo trabalho por nós desenvolvido. Nesses casos questionamos se não houve empatia, se ouve falha de comunicação, falha na mensagem seja sobre música, ética, respeito ao próximo, entre outros aspectos. Costumo dizer que os canais receptores devem estar abertos para que o trabalho em grupo tenha bons frutos para todos, caso contrário ambos perdemos nosso tempo.


4. Como é manter sua carreira de pianista paralelamente à de professora?

Costumo dizer que estou pianista ou não. Atualmente estou mais pianista. Em 2010 pretendo tocar bem mais. O importante é que durante os períodos de recesso (do piano) estive sempre ensinando. Com esta atividade eu mantive meus conceitos técnicos e musicais em efervescência, em desenvolvimento. Por isto, ensinar sempre valeu à pena. Realmente, ser professora, pesquisadora e orientadora e ainda pianista requer muita energia e organização. Uma das ações sempre diminui sua produtividade em detrimento da outra, mas ser professora carrega toda a experiência das demais atividades e o retorno para os alunos é sempre positivo.


5. Quais as suas áreas de pesquisa atuais? Como elas afetam o ensino e a prática musical?

Minha pesquisa é totalmente voltada à subárea de práticas interpretativas (pianística) dentro de uma visão interdisciplinar, ou seja, questões técnicas associadas ao resultado sonoro, sempre em função do texto musical, considerando aspectos do movimento. Minha sala de aula é nosso laboratório. Também pesquiso repertório de câmera com piano, sobretudo música brasileira e, desde o Bacharelado, me interesso pela música moderna.


6. Na sua opinião, o que é preciso para se tornar um bom pianista?
O estudo de todos os conteúdos da música aliado ao trabalho do instrumento de maneira consciente e organizada. Relacionar as questões musicais às corporais, são vitais ao sucesso do investimento. O domínio técnico deve ser resultado da consciente relação entre: - texto musical – movimento (ação) – sonoridade (reação).  Acho que, resumidamente, isto seria técnica (arte).


7. Se você tivesse que escolher os melhores momentos do seu percurso na música, quais seriam?

Todos: tocando, ensinando, pesquisando, convivendo, aprendendo, enfim, vivendo.


8. Você é professora do CEART desde 1975. O que a mantém fiel ao Centro há 34 anos?
Acho que me mantenho na UDESC, sobretudo, por causa do ensino, do trabalho e do convívio os alunos. Para mim é a razão primeira e a melhor parte da Universidade; é aquela que nos mantém produzindo, que nos impele ao novo, à pesquisa e ao trabalho no instrumento.

Também gosto de encontrar a maior parte dos colegas (embora ultimamente as pessoas mal tenham tempo para se cumprimentar), conhecer novos colegas e rever aqueles que, como eu, estão na UDESC faz muitos anos.


9. Como você vê a evolução do cenário artístico e cultural de Florianópolis nas últimas décadas?

Em transformação, não poderia ser diferente. Muitas pessoas, organizações e instituições têm sido importantes neste processo. Neste cenário, o papel do Centro de Artes da UDESC tem sido fundamental desde a década de setenta, tanto na formação de profissionais quanto de platéia. Quanto às políticas culturais que nos cercam, falaremos em outra oportunidade.


10. Ao longo dos anos que você esteve no CEART, quais as principais mudanças que presenciou?
Foram tantas que daria um dossiê.


11. Qual a sua avaliação do presente e as expectativas para o futuro do Centro?
Muitas situações ocorreram desde que entrei na UDESC. Junto com colegas participei da colocação de muitos “tijolinhos”, uns sobre os outros. O ciclo continua e agora novos colegas participam desta contínua e permanente transformação.

Espero que o CEART se torne, cada vez mais, um centro de produção de conhecimento e de criação artístico-cultural e, sobretudo, um local de desenvolvimento humanístico, respeito às opções e ao “outro”. Mas que a produção numérica não ocupe o vital espaço da reflexão e da participação dos atores naquilo que está sendo produzido, tão necessárias à sedimentação dos resultados. Sem feedback não há crítica nem troca do conhecimento.

 

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© Centro de Artes, 07 de Fevereiro de 2012